A Pele da Terra


dispor as mãos à cicatriz do tempo  – Roberta Ferraz saúda A Pele da Terra de Mariana Whately –   A beleza imediata de um objeto talvez se ofereça pela pluralidade de caminhos que ele abre, acirrando-nos. Trata-se de um elogio à nossa singularidade, à nossa possibilidade de ir e vir na interpretação afetiva, conforme … Continuar lendo A Pele da Terra


dispor as mãos à cicatriz do tempo

 – Roberta Ferraz saúda

A Pele da Terra de Mariana Whately –

 

A beleza imediata de um objeto talvez se ofereça pela pluralidade de caminhos que ele abre, acirrando-nos. Trata-se de um elogio à nossa singularidade, à nossa possibilidade de ir e vir na interpretação afetiva, conforme são processadas as suas inúmeras interferências, em nós, em si e na maneira mesma de “retornarmos” ao mundo, transformados. No impacto, portanto, do golpe da beleza, atuam inúmeras mediações. Quero aqui pensar a complexidade da beleza como um gesto que desafia a banalidade, um dissenso, uma inteligência, esquivando-nos de um encontro facilitador com as camadas do sentido e do significado. Não se trata de um elogio do difícil. A beleza não é um dom de apenas uma das partes necessárias para que haja encontro, não se dá enquanto arte solitária de quem vê ou é visto. Sua imediatez, a constatação do arrepio selvático que provoca, é resultado de muitas mediações, muito temperar, filtrar, de muita espera. Enfim, o imediato da beleza é também a lentidão concisa que o encontro guarda em elaborar-se, explodindo à percepção: afrontando, afeiçoando. Percorro a beleza de A Pele da Terra por alguns de seus caminhos. E começo pela funda comunhão com o proceder alquímico que este trabalho manifesta.

Sobre a representação iconográfica das camadas de epiderme e das camadas geológicas, é legível uma espécie de “migração de símbolos”, reforçando a relação entre escalas heterogêneas, presente na linguagem humana desde há muito, como se pode ver na astrologia. O micro (pele) e o macro (terra) assemelham-se, tal como as estrelas (macro) desenhariam a possibilidade de leitura do curso de vida de um pequeno organismo, por exemplo, um ser humano (micro). Sensível à camaradagem visual com que registramos a densidade vertical das camadas da Terra, Mariana Whately nos mostra como, de maneira semelhante, soubemos olhar a pele e, atravessando a, tentamos ilustrar tanto os saberes sobre o corpo, quanto os saberes sobre nosso planeta. Rompendo com uma investigação horizontalizante, montando um “campo cirúrgico” em busca, nas palavras da artista, “da matéria prima, primeira: o afeto perdido”, o olhar de Mariana Whately quer descer, furar, pôr as mãos no escuro, tocar a qualidade comum que guarda a humanidade e seu suporte: vivos, sobre a terra; sob ela, mortos.

Renascendo em novos alimentos, em novas vidas, o ciclo do mostrar e esconder, pertencente à dinâmica imagética da pele/terra é, sobretudo, o ciclo da vida e da morte. O nosso imaginário não cansa de manusear seu repertório afetivo: eis a sede da interrogação sobre o mistério. O mapeamento vertical de nossa condição passa pela experimentação intensiva do tempo e assim, sabemos que enquanto estamos vivos, poderemos entrar em contato. Mas não só: rodeados pelos tijolos, os corpos desfeitos mas guardados, dos mortos que nos antecedem (o próprio volume da morte), exigem convivência. O que fazer com estes tijolos/corpos, com esta terra/pele? Será que, no imo desta expedição pele/terra, não se tentará o desmonte, num corpo, da agonia movente de buscar, sem cessar, pela origem das imagens? Quem terá inventado a maneira de comprimir as menores células entre dois folículos de vidro, para que se façam visíveis as intimidades da matéria? Como apanhar e traduzir a vontade microscópica de termos transparência para amealhar o obscuro?

Será do laboratório do alquimista (o primeiro biólogo do imaginário das trocas e transformações), que nos virão os sonhos de ver a célula primeira (vital), aquela gota de sangue, o ponto de concentração dos segredos, capaz de nos narrar a trama de sua história? Abramos, ao microscópio das nossas vontades de ver, a parte obscura de nós próprios: o desejo insatisfeito revela que não nos bastam os frascos em uma situação de laboratório hospitalar, onde só por poucos segundos assistiríamos ao vazamento do fluxo quente de nossa cor interior; os frascos logo nos são retirados da vista, pelas luvas eficientes da saúde, levados à análise para um resultado (números, índices) que nunca condiz com a espessura do que buscamos saber. A ciência talvez, resignadamente calma, ocupe o lugar dessa frustração com a qual nos invade o corpo, expondo de modo anestesiado a “comunidade comum” do nosso interior, as vísceras quase idênticas, o esqueleto quase gêmeo, uma falta de segredo. Mas não convém, é pouco, não basta: é pela arte que descobrimos ser possível provocar o território visível do invisível. E as camadas derrisórias do tempo que supõem cada corpo, cada matéria, são dadas, com satisfação e beleza, à festa difícil, ambígua, precária, da visão.

O encontro pode sugestionar um gesto de agradecimento, louvação, mas não só. Experimentar a derrelição da matéria, dar ao tempo e ao passado a chance de mãos presentes, não se intimidando com sua evidente condição de indisponibilidade, eis uma decisão voltada à crítica e à beleza. Dizem que de um morto não se fala, que um morto perdeu os atributos condenáveis pelos vivos e está agora sob outra espécie de juízo, cuja compreensão nos exige ser impossível. Os tabus estão aí para assinalar esse temor, esse cuidado. Mas o que fazer com os restos que não esmorecem, as sobras que não sossegam, as pedras (tijolos) no meio do caminho?

Mariana Whately não aceita servir à distância, louvar por precaução. Enfia as mãos no barro. Tinge-se com a terra de seu passado, faz-se responsável na recepção e reelaboração de sua história com o tempo. Se o faz também com delicadeza, repare com mais atenção. No trabalho Labor a dor, vemos, em recorte, as mãos sobre um lençol branco, trabalhando a terra, com os mais diferentes utensílios. O labor arcaico de uma domesticidade (o tijolo vai se desfazendo em pão, em sabonete, ovo, migalhas, sumiço), a ruminação eterna deste marrar contínuo, chegam enfim à ardência irritadiça, resultante não só do excesso de repetição do ato de macerar, do cansaço desta busca que não se aplaca, mas do pó de mico, a substância utilizada pelas antigas olarias, na confecção de cimento e tijolos, que provocam forte coceira na pele, depois de um contato prolongado. Não se engane: é a delicadeza uma artimanha (a mais eficaz, talvez?) do modo oblíquo, crítico e agudo com que Mariana Whately nos chama a ela, chamando-se a si. Abrir o berço de sua própria terra é um gesto de amor e de dor. A imagem da pele/terra alerta-nos para isto: o nosso maior órgão (a pele), tem como função não apenas defender, limitar o contágio mas, sobretudo, permiti-lo; e a terra, onde escondemos desde já a nossa ausência futura, servindo-nos de alimento, lembra-nos que em breve seremos irmãos e serviremos, nós também, de alimento ao futuro que não nos pertence.

Fazer ceder a matéria pede uma calma profanação, uma sedução das lentidões, um jogo de disfarces com o tempo, pelo qual a matéria se esquecesse de resistir. Esta ação, venusiana, é um exercício primeiramente mental, um conquistar a entrega, a dureza do outro. Nas artes de Vênus, é por meio do movimento do tecido, da pele e dos cabelos, que o biombo do cobrir e des-cobrir encobre uma estratégia exímia (leia-se agressiva) à qual não se consegue resistir, ou, corrigindo, não se quer resistir. Dispondo de um sugestivo arsenal de formas culturalmente associadas ao feminino, Mariana Whately elabora minuciosamente a nossa rendição a seus recursos e, ao entregarmos a pele simbolicamente em nossa roupa, profanamos, com ela e através de sua obra, o espaço de nossa sonhada intimidade, abrindo-nos ao contato visceral com o outro. A insistência em operar na ambivalência do gesto, no trabalho de Mariana Whately, é fundamental: sim, há um convite, amoroso, que convoca à fusão dos corpos, à partilha, ao roçar dos tecidos, peles, dobras, musculaturas, memórias, fazendo-nos ofertar também a nossa pele, a nossa roupa.

Mas não só: estamos no domínio quase cru dos contatos, na escala analítica da dissecação laboratorial (mas não hospitalar, e sim alquímica) de nossas relações. Somos afetados e, só depois de rendidos, começamos a compreender a complexidade dos afetos, a brutalidade inocente da fricção dos corpos, a densidade das trilhas que nos conduzem um em direção ao outro, todos em direção ao comum: o tempo, as mortes, as partilhas do invisível, o futuro onde inevitavelmente, quer queiramos ou quer não, anularemos as singularidades de nossas atrações e repulsas, e, queiramos ou não, seremos todos irmãos. A condição de obrigatoriedade da irmandade futura é o meio-fio de ironia, por onde desfila o ato caprichoso de nos despirmos num provador de peles, dentro do CAC W. Trocar de pele, de roupa, é ensaiar a transubstanciação final – a morte – onde, contagiados, seremos os tijolosbebês da matéria do futuro.

Dentro dos véus de uma vênus benéfica há a sombra das bacantes e a feitiçaria se opera como coceira no dorso das mãos. Do desaparecimento da pedra fundadora, o tijolo JJ, sacrifica-se a própria pele enquanto magia ritual que conclame o desmonte dos fantasmas. Rasurando as iniciais de uma norma ou maneira de construir, entregando a própria pele à coceira e irritabilidade desta profanação, encontramos uma maneira mais libertária de nos relacionarmos com as heranças atávicas, o tijolo genético no qual seguimos vivos e habitando nossos desejos.

O que estava escondido no objeto pesado e quadrangular revela-se pó de pemba, o pó de mico que, na umbanda, serve justamente a rituais de separação, quebra, crise. Só depois de inúmeras depurações, uma psicanálise afetiva da pele em suas múltiplas metáforas materiais, é possível vestir a vontade de encontro com a pele do outro, encontrando a possível beleza da nudez, daquilo que nos veste em nossa intimidade, invisibilidade e mistério. Então o sagrado, a epifania da obra, vislumbra-se possível: o encontro terreno. Não só no corpo de terra, passado ou futuro, mas na consciência de nossa precariedade agora, na grandeza efêmera de um diante do outro. No infinito turbulento dos inúmeros gestos, vamos aprendendo que, como disse Pessoa, “o segredo da busca é que não se acha”. Segredo para o qual, irmanada com a artista, sussurro junto: eis a beleza.