Morrer para Germinar – Ivan Grilo


Saiba, meu amor” – era um cartão postal que chegava, só poderia ser o anúncio do solstício. O texto depois seguia assim: “Há algo desmoronando, e há também algo que está nascendo. Nós escutamos o barulho do carvalho que cai, mas não escutamos o barulho da floresta que brota.” Mas isso era coisa do Leloup, … Continuar lendo Morrer para Germinar – Ivan Grilo


Saiba, meu amor” – era um cartão postal que chegava, só poderia ser o anúncio do solstício.
O texto depois seguia assim: “Há algo desmoronando, e há também algo que está nascendo. Nós escutamos o barulho do carvalho que cai, mas não escutamos o barulho da floresta que brota.” Mas isso era coisa do Leloup, não sei se estava mesmo no cartão.
Essa última noite fez muito calor em Itatiba, e também choveu. Imagino que essa combinação tenha estimulado algo entre uma determinada espécie de insetos. Quando saí correr logo às seis da manhã, talvez pensando em Fidípedes, reparei muitos pequenos insetos pelo chão. Deveriam voar, mas estavam caídos, enganchados um no outro, provavelmente copulando. Foram cenas seguidas. Se repetiam como minha respiração ofegante.
No ano de 490 a.C., os persas planejavam tomar o território grego; ingressariam pelo mar Egeu e seguiriam por terra até Atenas. Temendo saques e violência a mulheres e crianças, a orientação para as atenienses era de sacrificar seus próprios filhos e, em seguida, cometer suicídio caso a notícia da vitória grega não chegasse.
Quando o sol já começava a aparecer comecei a ver pássaros – alguns muito bonitos – se alimentando dessas duplas de insetos. Talvez ambos morressem para o pássaro germinar. Talvez apenas o macho estivesse se tornando alimento e a fêmea seguiria germinando. Talvez eu tenha inventado tudo isso. Assim como inventei que hoje era um solstício. Não era.
Os gregos saíram vitoriosos e impediram a invasão persa, entretanto levou mais tempo do que se imaginava. Era preciso correr para comunicar e abortar a situação de emergência. Fidípedes ficou responsável pela missão de percorrer os quarenta e dois mil cento e noventa e cinco metros que restavam até Atenas. Chegou a tempo. Salvou mulheres e crianças, mas morreu logo após o anúncio da vitória.
Em tempos difíceis, a gente morre um pouco todo dia. A gente e o país. Mas o Gil me ensinou que tem que morrer para germinar. A gente e o país.
Saiba, meu amor, a gente é o país.